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Ilustradores x IAs: afinal, a polêmica é sobre direitos autorais ou sobre dinheiro? Vamos destrinchar as contradições do mercado de arte sem hipocrisia.
Senta que lá vem história. Se você é ilustrador, designer ou apenas um curioso que acompanha tretas artísticas na internet, já deve ter visto o circo pegando fogo. De um lado, artistas pistolas com as IAs geradoras de imagem. Do outro, entusiastas da tecnologia dizendo que "a evolução é inevitável". No meio, um monte de contradição que ninguém quer admitir.
Mas vamos combinar: será que o problema é realmente a IA "roubar" arte, ou o medo real é outro?
Pegue sua xícara de café (ou o energético, não julgo) porque vamos mergulhar nesse debate sem filtro.
Primeiro, vamos entender a dor de quem cria há anos.
As IAs como Midjourney, Stable Diffusion e DALL-E foram treinadas com bilhões de imagens coletadas da internet. Bilhões. Muitas delas, obras de artistas vivos, ativos, que nunca autorizaram nada.
Para o ilustrador que passou uma década aperfeiçoando um estilo único, ver a máquina cuspir uma imagem "no estilo dele" em 10 segundos é como levar um soco no estômago. O sentimento é de violação. É como se você passasse anos construindo uma casa e alguém copiasse a planta, entregasse de graça e ainda dissesse "foi sem querer".
As empresas de IA se escondem atrás do conceito jurídico de fair use (uso aceitável), mas a verdade é que a briga nos tribunais está apenas começando. E sim, tem fundamento na revolta.
Aqui é onde a coisa fica interessante. E você, leitor inteligente que já sacou onde isso quer chegar, deve ter percebido a contradição que poucos comentam.
Antes da IA existir, o mundo da arte já era um mar de práticas questionáveis.
Sério. Vamos listar só algumas que todo mundo vê e finge que não:
Onde estava a revolta dos artistas contra essas práticas?
Silêncio. Ou melhor, era tratado como "mal necessário", "faz parte" ou "todo mundo faz".
Aí chegou a IA, que faz tudo isso em segundos e sem cansar, e de repente o discurso mudou para "isso é a morte da arte". Interessante, não?
Existe uma romantização do trabalho humano que é curiosa. Quando um artista copia outro na mesa de luz, ainda existe ali o "sofrimento", a "jornada". A sociedade perdoa porque "pelo menos ele desenhou, mesmo que copiado".
Quando a máquina faz, a reação é "isso é desumano".
Mas o resultado, meu amigo, é o mesmo: o artista original foi lesado. A diferença é a escala e a velocidade. E talvez, apenas talvez, o fato de que agora a "ameaça" não é mais o colega do outro lado do mundo que cobra mais barato, mas sim uma ferramenta que qualquer um pode operar.
Vamos parar com o mimimi filosófico e ir direto ao ponto que você, caro leitor, já deve ter captado:
O grito de "isso não é arte" é, na maioria dos casos, um grito de "estou com medo de perder minha renda".
E é legítimo! É assustador!
Imagine você, que passou anos investindo em técnica, cursos, materiais, construindo um portfólio e uma clientela. De repente, um cliente olha para você e fala: "Cara, eu pedi pra IA fazer em 10 segundos e ficou bom. Por que eu pagaria R$ 1.500 para você?"
Esse é o medo. O medo da desvalorização. O medo de não conseguir competir com o "grátis" ou com o "quase grátis". O medo de que seu diferencial (a técnica) se tornou um commodity.
Mas aí, em vez de assumir esse medo (que é humano e justo), o debate é deslocado para o campo filosófico. É mais fácil dizer "isso não é arte" do que dizer "estou com medo de não pagar minhas contas mês que vem".
Lembra quando a fotografia surgiu?
Os pintores de retrato tiveram taquicardia. "Isso vai acabar com a pintura! Vamos todos morrer de fome!". O que aconteceu? A pintura não morreu. Ela se reinventou. Deixou de ter a obrigação de ser realista e partiu para o expressionismo, cubismo, abstracionismo. A fotografia virou uma nova arte, e os pintores que se adaptaram continuaram nadando de braçada.
E o Photoshop? Quando chegou, os laboratoristas e retocadores manuais tiveram o mesmo surto. "Isso não é arte, é botão!". Hoje, a demanda por arte digital é infinitamente maior do que era antes.
Os bancos de imagem como Shutterstock também derrubaram o preço da fotografia de stock, mas criaram um mercado gigante para fotografia autêntica, de nicho, que banco de imagem não entrega.
A tecnologia nunca matou a arte. Ela matou modelos de negócio que não se adaptaram.
A pergunta de um milhão de dólares.
Se a IA gera uma imagem que emociona, que faz alguém se sentir representado, que decora uma parede... isso é arte?
A definição clássica de arte envolve intenção humana, expressão e técnica. A IA não tem intenção (pelo menos por enquanto), mas o humano que sentou na frente do computador e passou horas refinando o prompt (o comando) tem. O diretor de arte que selecionou aquela imagem entre milhas tem.
Talvez a arte não morra. Talvez apenas os artistas que insistirem em ignorar a ferramenta sofram mais.
Não estou dizendo que é justo. Não estou dizendo que artistas não deveriam ser compensados quando seus estilos são usados em treinamento de IA. Muito pelo contrário: a regulação e a ética no treinamento desses modelos é uma pauta urgente e necessária.
Mas também não podemos fingir que o mundo pré-IA era um mar de rosas ético, onde plágio e furto de imagem não existiam.
A polêmica das ilustrações com IA expôs algo maior: a fragilidade de um mercado que sempre teve suas brechas, mas agora vê um competidor que opera na velocidade da luz.
O debate sobre direitos autorais é super válido e precisa acontecer. Mas ele precisa ser honesto.
Não dá para cobrar ética da IA e fingir que as mesmas práticas, quando feitas por humanos, são "só uma referência" ou "jeitinho brasileiro".
A pergunta que fica é: você vai passar os próximos anos reclamando da máquina, ou vai estudar como usar essa ferramenta para potencializar seu próprio trabalho?
A história está sendo escrita agora. E ela não espera ninguém que ficou parado no tempo, com medo do novo.
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